Revista Fórum – Se a passagem da Acadêmicos de Niterói pela Sapucaí foi uma ode à trajetória do presidente Lula (PT), o enredo reservou uma carga de sarcasmo e crítica contundente ao homem que tentou tirá-lo do poder à força. Numa narrativa visual que não poupou simbolismos, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi retratado para o mundo como aquilo que realmente ele é: um criminoso golpista e condenado, que cumpre pena por ter tentado derrubar o regime democrático brasileiro. No entanto, para contornar eventuais problemas jurídicos, a agremiação utilizou um personagem que por anos serviu de apelido para o antigo mandatário de extrema direita: o palhaço Bozo.
A escola, que estreou no Grupo Especial, utilizou alegorias e encenações coreografadas para recontar a história recente do Brasil sob uma ótica de resistência e vitória da democracia. A grande estrela foi Lula, o homenageado, mas não faltaram menções aos inimigos que de forma suja e ilegal tentaram vencê-lo.
A sucessão de máscaras: De Temer ao Bozo
Um dos momentos mais comentados ocorreu logo no início do desfile, em uma encenação sobre a linha sucessória da República. O público viu bonecos com cabeças de proporções exageradas, mas realistas, identificando claramente a ex-presidenta Dilma Rousseff, o atual presidente Lula e o ex-presidente golpista Michel Temer.
Na performance, a figura de Temer foi representada “tomando” a faixa presidencial de Dilma, uma alusão direta ao impeachment farsesco e fraudulento de 2016. No entanto, o tom mudou drasticamente na sequência: o personagem que surgiu para receber a faixa de Temer não tinha as feições reais de Jair Bolsonaro, mas sim a maquiagem e os cabelos característicos do palhaço Bozo, apelido pejorativo que marcou sua gestão.
Cela e toga: A sátira da prisão
A crítica subiu de tom nos carros alegóricos. Em uma das composições, a escola apresentou uma cela de prisão onde a figura do Bozo aparecia enclausurada. Ao seu lado, um personagem careca vestindo uma toga, uma referência inequívoca ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, foi representado azucrinando o ex-presidente desesperado.
A cena simbolizou o cerco judicial que culminou na prisão de Bolsonaro. Para fechar o conceito, uma gigantesca alegoria trouxe um boneco colossal do palhaço Bozo sentado atrás de grades de ferro, usando uma tornozeleira eletrônica danificada, enquanto componentes ao redor celebravam o que o samba-enredo chamou de “o triunfo da justiça sobre o medo”.
Contexto real: A Papudinha
A sátira da Sapucaí encontra eco na realidade jurídica enfrentada pelo ex-capitão autoritário que tentou virar ditador, mas se deu mal. Atualmente, Bolsonaro cumpre uma pena de 27 anos e três meses de prisão em regime fechado.
Após um período de prisão domiciliar e passagem pela Superintendência da Polícia Federal, o ex-presidente golpista foi transferido para o 19º Batalhão de Polícia Militar, conhecido como “Papudinha”. O local fica situado dentro do perímetro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, onde ele permanece sob custódia definitiva por crimes como tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e formação de organização criminosa.