Fonte: A Gazeta – Chegar aos 100 anos nos dias de hoje é uma dádiva difícil de ser alcançada, mas não impossível, pelo menos não para a Dona Alvarina Campos, que não só alcançou, como também ultrapassou. No dia 3 de janeiro, a munizfreirense completou 115 anos de muita saúde e vitalidade.
Nascida em 1911, no distrito de Piaçu. em Muniz Freire, Região Sul do Espírito Santo, ela conheceu uma época em que a vida no interior era marcada pela dureza do trabalho rural e pela escassez de recursos. Tornou-se testemunha viva de mais de um século de transformações sociais, culturais e religiosas.
Carinhosamente chamada de Nina, cresceu em meio à roça, ajudando a mãe e as irmãs nas tarefas do campo, em uma rotina marcada pelo esforço diário e pela simplicidade. A força, a coragem e a resiliência vieram de berço. Mãe solteira, Alvarina construiu sua própria história de independência em uma época em que poucas mulheres tinham essa possibilidade.
Trabalhou por décadas como lavradora nas lavouras de café da região e caminhava 4 km por dia para garantir o sustento da filha e manter a casa. Mesmo sem acesso à educação, aprendeu com o tempo, e hoje carrega uma sabedoria que impressiona quem com ela convive.
Hoje, a centenária vive no terreiro do neto, Luiz Campos Gomes, de 54 anos, na comunidade Cristo Rei, em Assunção, distrito de Alto Norte.
Mesmo aos 115 anos, segue ativa, lúcida e participativa, ajudando nos afazeres do dia a dia, observando a rotina da casa e mantendo sua forte presença de matriarca. Ela é mãe de uma filha, avó de nove, bisavó de oito e tataravó de 13 pessoas, deixando um legado que atravessa gerações.
O segredo da longevidade
Para quem convive de perto com Dona Alvarina, a longevidade não é um mistério, mas resultado de uma vida simples, ativa e profundamente conectada à terra. Segundo o neto Luiz, a avó sempre manteve uma rotina saudável.
“Ela sempre foi muito ativa. Ajuda em quase tudo em casa, só não cozinha mais por precaução. Gosta de comida simples, como canjiquinha, polenta, taioba e serralha. Acredito que a alimentação natural seja um dos segredos da longevidade dela”, destaca Luiz Campos Gomes, neto.
A alimentação baseada em produtos cultivados pela própria família e livres de agrotóxicos sempre fez parte do dia a dia da centenária. Ao longo da vida, ela plantou, colheu e preparou seus próprios alimentos, mantendo uma relação direta com a natureza e com o que colocava à mesa.
Um hábito curioso, mas nem tão saudável, é o consumo de fumo, mantido até os 80 anos. O tabaco era cultivado por ela e pelas irmãs e fumado em cachimbo, prática comum entre trabalhadores rurais da época. Apesar disso, ela sempre manteve uma vida fisicamente ativa.
A fé
A fé sempre foi um dos pilares da vida de Dona Alvarina. Devota de Nossa Senhora Aparecida, ela participou durante muitos anos de romarias ao Santuário Nacional, em Aparecida (SP), e a religiosidade, aprendida ainda na infância, acompanhou cada fase da sua caminhada.
Sua história e fé também chamaram a atenção do bispo diocesano de Cachoeiro de Itapemirim, Dom Luiz Fernando Lisboa, que no ano passado visitou a centenária e a classificou como um exemplo de perseverança.
“É um exemplo de vida e de perseverança cristã. Sua fé e lucidez são sinais da graça de Deus que a acompanha ao longo de tantos anos“, enfatizou Dom Luiz Fernando Lisboa, Bispo da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim.
A espiritualidade também sempre esteve presente nos momentos familiares. Segundo o neto, a avó fazia questão de reunir filhos, netos e bisnetos, especialmente durante a Semana Santa, para partilhar pratos tradicionais como arroz doce, canjicão e paçoca, preparados com ingredientes cultivados por ela mesma. Mais do que refeições, eram momentos de união e partilha.
Aos 115 anos, Dona Alvarina Campos segue sendo um símbolo de fé, resistência e amor à família. Uma mulher que atravessou gerações mantendo vivos os ensinamentos da simplicidade, do trabalho e da confiança em Deus.